Categorias

Mostrando postagens com marcador publicações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador publicações. Mostrar todas as postagens

domingo, 11 de dezembro de 2011

Da Cidade das Serestas ao Bloco Vai-Quem-Vem

Muito já se falou sobre Conservatória, sua simplicidade, seus encantos, suas casas com nome de música, a serenata que corre a cidade durante a madrugada... Não sou o primeiro, nem serei o último, a se emocionar com a paz e a tranquilidade desse lugar simplesmente encantado, ou encantadoramente simples. Perdi a conta de quantas vezes estive por lá, a primeira em janeiro de 1983.

Desde então, durante mais de 25 anos passei férias, feriados e fins de semana no Hotel Fazenda Vilarejo. Lá, criamos uma família, filhos cresceram juntos. Os meus mais velhos desde 7 e 5 anos de idade; o mais novo, desde a barriga.

Hoje somos um grande grupo - se contarmos todos os cúmplices, passamos de 300 - que se encontra no Rio de Janeiro. Desde a turma que tem hoje por volta de 12 anos até os que já passaram dos 30, além de todos os pais. Nós nos encontramos, todos os anos, no Carnaval de Conservatória, mais precisamente no Carnaval do Hotel Vilarejo.

A culpa é de Lili e João, desse casal anfitrião maravilhoso. Sua família se juntou a de todos nós, desde que tudo começou. Sem perder a simplicidade, sem esmorecer na luta, cultivando a humildade e a sabedoria de quem trabalha – e muito – pondo o coração no dia a dia.

Em 1995, fundamos o nosso bloco, o Vai-Quem-Vem. Com orgulho dizemos que nosso bloco não cabe na avenida. Para que o final do bloco chegue à praça da apoteose de lá, é preciso seguir em frente, muito além do fim da rua. Porém, com muito mais orgulho podemos dizer que, se nosso bloco não cabe na avenida, “tanto riso, tanta alegria” não cabem dentro de nós.

Não há competição, não há jurados, notas, concorrentes ou inimigos. Apenas a alegria de pôr os pés na avenida e a boca no mundo. Cantando os sambas que, no fim das contas, falam de nós mesmos, de tudo que vivemos nesses anos todos. Coube a mim fazer as letras dos nossos enredos, emolduradas por melodias sempre marcantes: duas delas com Ruy Quaresma – meu parceiro musical há mais de 40 anos; treze em parceria com Lúcia e Orlando – amigos e parceiros de samba e de Vilarejo desde o início.

Convervatória e o Vilarejo estão lá, à espera de quem quiser sorrir. Nosso Carnaval continua, sempre pronto a receber mais um folião que queira curtir. Os sambas estão aí do lado, à espera de quem quiser ouvir.

Gerson Jorge

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Cadeira para secretária sem braço

Solicitamos cadeira para secretária sem braço. Esta frase não é meramente um exemplo didático, foi retirada da correspondência de uma grande empresa.

Com certeza o solicitante sabia o que estava pedindo. Mas o que dizer da “compreensão” do fornecedor? Um texto empresarial não admite interpretação. Só deve haver uma única mensagem a comunicar. Pior do que o não entendimento é o entendimento não esperado. O não entendimento para o processo, e a dúvida pode ser desfeita; o entendimento não esperado pode fatalmente levar a uma ação equivocada.

A palavra pode ser aliada ou inimiga, mas sem comunicação não existimos. Com base na consagrada afirmativa "o homem é um ser social por natureza", pode-se afirmar: solidão é a ausência de comunicação. Na prática tal constatação se reflete no papel importante que a Comunicação tem assumido. Cada vez mais, empresas têm dado destaque à Comunicação, falada ou escrita.

Neste contexto, há um provérbio chinês muito interessante: Se dois homens vêm andando por uma estrada - cada um carregando um pão - e, ao se encontrarem, eles trocam os pães, cada homem vai embora com um. Se dois homens vêm andando por uma estrada - cada um carregando uma idéia - e, ao se encontrarem, eles trocam as ideias, cada homem vai embora com duas.

E é dentro dessa importância, dessa abrangência da Comunicação, que enfrentamos nossas tarefas diárias, entre palavras e sentimentos. Proporcionamos alegrias ou causamos enganos. Abrimos portas, ou nos fechamos incompreendidos. Levamos uma plateia ao delírio, ao silêncio emocionado; ou falamos pra nós mesmos, no vazio do que dizemos.

O que nos faz escutar uma pessoa durante horas? O que não nos permite sequer dar atenção a outras durante poucos minutos? Mais do que as palavras escolhidas, a verdade no que está sendo dito é que nos prende. Palavras sem sentimento nada dizem, são corpos sem alma cuja carne apodrece. Costumo dizer que a Comunicação começa antes da Gramática e vai além dela. A Gramática em si nada significa. Ela deve estar a serviço da Comunicação.

Portanto, a crença no que estamos falando ou escrevendo é a responsável pela empatia com nosso ouvinte ou leitor. Se não acreditamos no que dizemos, de nada adiantam a beleza do vocabulário e a perfeição do texto. Paralelamente, o uso correto da Gramática tornará o texto compreensível.

Existem recomendações importantes na Comunicação. A repetição de palavras ou de ideias deve ser evitada. A repetição de palavras denota vocabulário escasso; a repetição de ideias aparenta falta de conhecimento geral e até mesmo insegurança. Períodos longos também dificultam o entendimento, pois levam ao excesso de vírgulas e de conectivos. Além disso, o foco não pode estar em quem comunica ou no que é comunicado, mas no ouvinte, no leitor.

Seguindo-se tais recomendações terminam os riscos? Ainda não. O texto empresarial, mais do que qualquer outro, requer preparação anterior à escrita. Antes de colocar as palavras no papel, é preciso “perder” um tempo razoável com a organização: relacionar os assuntos; selecionar os realmente imprescindíveis; juntar os afins; e, finalmente, estabelecer prioridades, definindo a ordem em que deverão ser escritos. Só então desenvolver a escrita. O resultado final será, com certeza, um texto fácil de ser entendido. Praticar este método é uma das ferramentas de um bom curso de Redação.

Infelizmente sempre houve uma grande distância entre o que estudamos na Língua Portuguesa e aquilo que utilizamos no dia a dia. Perdemos muito tempo de nossas vidas decorando regras e recebendo muitas vezes informações desnecessárias ou erradas. Ocupamos nossas mentes com o menos importante, deixando de lado o essencial: o relacionamento das palavras, a estrutura da frase.

E havia os famosos “macetes”, os chamados facilitadores do aprendizado. Muitos dão resultado. Alguns, entretanto, são danosos. - Respirou, bota vírgula! Quantos de nós não tivemos tal orientação do professor? Isto é um enorme equívoco. A pontuação não é uma questão respiratória, é uma questão lógica. A pontuação é uma questão tão lógica que é capaz de mudar significados. Uma pequena vírgula pode fazer uma grande diferença: Encontramos seu irmão mais velho. Encontramos seu irmão, mais velho.

Todos podem melhorar seu texto, ganhar segurança e dominar a Comunicação. A questão é o foco. Quando olhamos na direção certa, tudo fica mais fácil. A Língua Portuguesa não é difícil, a forma de lidar com ela é que a torna distante. A importância não está nos nomes, e sim nas relações. Palavras sozinhas podem não dizer nada, ou até dizer demais. Quando relacionadas ganham vida, tornam-se mensagem, que deve ser clara e objetiva. E isso não se consegue decorando nomes ou regras, mas praticando, compreendendo e vivendo as estruturas e, consequentemente, o texto.

Comunicamos mal porque não estamos bem? Ou não estamos bem porque comunicamos mal? Não sei... E talvez nunca saiba. Mas, depois de tantos anos lidando com o Ensino, e por isso aprendendo, de uma coisa eu sei: Não há um caminho que leva à Comunicação, a Comunicação é o caminho.

Gerson Jorge